A imposição de uma maternidade Rosa

mãe

Estou diariamente com mães. E também sou mãe. Nas minhas consultas é frequente que as mulheres que estão à minha frente abram as “portas” das suas vidas e do seu coração. Contam-me as suas frustrações, falam-me da sua solidão e das dificuldades. Tantas vezes acabam em lágrimas. Mas é algo que acontece ali, entre quatro paredes. Depois, têm de seguir o seu caminho com cara fresca e limpa.

Aquilo de que me fui apercebendo ao longo dos anos é que as pessoas esperam que as mães estejam sempre felizes. As mães aguentam tudo com um sorriso e um “bola para a frente” porque a maternidade é um romance digno de Hollywood, cor-de-rosa, cheia de magia onde o instinto é tudo. E se as que dizem que não, que a vida de mãe nem sempre é cor-de-rosa, que há lados mais negros e difíceis, são – muitas vezes – apelidadas de “más” mães, não merecedoras dos seus filhos. Por vezes, são elas mesmas que sentem que o são e se culpabilizam.

Esta é quase uma imposição social: mãe é um ser feliz e pleno.

É claro que ser mãe é absolutamente maravilhoso. Ainda ontem, em conversa com uma amiga, falávamos sobre isso. Para nós, os nossos filhos são mais do que “apenas” filhos. São o nosso projecto de vida.

Ser mãe envolve momentos inacreditavelmente perfeitos. Inexplicáveis. Em que o nosso coração aperta de tanto amor. Só a maternidade nos mostra que conseguimos vibrar mais com as conquistas de alguém do que com as nossas porque os filhos têm aquele super-poder de ser algo maior do que nós mesmos, ainda que pertençam “cá dentro”.

Mas a maternidade também tem o seu lado “negro” e a sociedade parece ser cega a ele, pressionando as mães para que não demonstrem aquilo que realmente sentem. E muitas vezes as mães estão esgotadas, exaustas, desgastadas… e guardam tudo dentro delas para que não sejam julgadas.

Sentir tristeza, cansaço faz parte. É normal. Há pequeninos mais exigentes. Há obstáculos pelo caminho e esta estrada não tem apenas rectas.

As mães precisam de acolhimento, respeito e principalmente de serem vistas como um ser humano. Precisam de ser vistas como pessoas; que também falham, que também precisam de ajuda e que não, não estão  a viver um romance lindo onde filhos limpinhos, perfeitos e sempre bem educados, que dormem bem e comem bem, que sorriem para toda a gente e nunca fazem birras as fazem ser mães irrepreensíveis.

Vamos amar as mães, sim? As nossas, as outras e nós mesmas. Empatia precisa-se!

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