Às Mães com 2 Filhos (e se calhar às de mais também)

afonso e ica

Quando a Frederica nasceu, o Afonso tinha 3 anos.

Quando ele chegou ao hospital para conhecer a mana, tive um choque. A Frederica era muito, muito pequenina, mas quando vi o meu filho aproximar-se assustei-me com o seu tamanho. Não com dela! Com o dele.

O meu bebé Afonso era enorme, as suas mãozinhas que até há 1 dia me pareciam pequeninas nas minhas, eram grandes em cima da irmã. Quando o peguei ao colo e os tinha aos dois nos meus braços senti algo tão estranho… um amor avassalador, uma felicidade sem nome, mas também uma sensação de perda… ganhei uma bebé, mas perdi outro. O Afonso já não era o meu bebé. Era um rapazinho e acho que o vi assim pela primeira vez no dia em que ele veio conhecer a irmã.

Com um segundo filho estamos mais tranquilas. Relaxamos em relação a uma série de coisas… não temos medo da temperatura da água, sabemos manusear o bebé para o vestir, percebemos se têm frio ou calor, gerimos melhor desconfortos e choros, conseguimos acalma-lo mais facilmente – pelo simples facto de estarmos mais calmas. Estamos mais confiantes e… descomplicamos. Por outro lado, sabemos agora que eles crescem demasiado depressa… então, talvez não tiremos tantas fotografias, talvez não façamos os álbuns bonitos, talvez não celebremos os meses ou compremos livros, brinquedos e roupa com frequência mas cheiramos mais (sabem? aquele cheirinho da cabeça dos nossos bebés??), aproveitamos mais e tentamos mais que certos momentos parem, congelem, para que eles sejam nossos para sempre.

No segundo achamos que seremos perfeitas! Que não teremos tantas dúvidas. Que tudo vai correr melhor do que com o primeiro.

Mas não contamos com uma coisa – algo que aparece tantas e tantas vezes nesta aventura da maternidade: a culpa. Quando a Frederica nasceu, a única coisa que me custou mesmo, mesmo muito foi o facto de sentir que, de repente, perdia um filho para ter outro. Sentia saudades do Afonso, pese embora ele estivesse sempre presente e com tanta (ou mais!) atenção do que antes da irmã nascer. Sentia pena de nem sempre conseguir ser eu a contar a história antes de ir para a cama, mesmo que fosse lá sempre à cama dar-lhe um beijinho e um miminho. Sentia pena de nem sempre conseguir ir passear ao parque, andar com ele a jogar à bola, ter energia e vontade para ser a mãe que era quando era só dele. Sentia, muitas vezes, que tinha entregue o meu filho ao pai para que eu pudesse tratar da minha filha.  E isso deixava-me com uma culpa gigante. Por outro lado, sentia culpa também por sentir-me assim: a Frederica era pequenina e precisava mais de mim do que de qualquer outra pessoa.

Este é um sentimento que não foi só meu. Que não é só meu. Falo dele hoje porque me comovo sempre que falo com mães que acabaram de ter o segundo e que ainda estão perdidas neste mar de culpa. E ainda hoje falei com uma…Todas as semanas encontro alguém que vive o segundo filho com um enorme amor e felicidade, mas com esta sensação de perda, de dificuldade em gerir a família a 4, de encontrar tempo para mostrar aos dois que os ama de igual maneira.

É que o coração de uma mãe alarga, estende-se imediatamente ao outro e consegue conter o Amor a duplicar (e a triplicar e mais, dependendo do número de filhos que se tem). Mas os braços da mãe nem sempre chegam a todo o lado em simultâneo e, no início custa muito conseguir entender que somos elásticas no Amor que sentimos, mas que os braços nem sempre conseguem abraçar o Amor inteiro.

Até hoje, e já passaram quase mais 3 anos, tenho momentos enquanto mãe que me dá vontade de juntar os meus dois filhos e cola-los junto a mim, como fazemos com as plasticinas azul e verde e as juntamos numa bola grande na mesa da cozinha. É uma imagem “estranha” esta… mas acredito que muitas de vocês se irão rever nela.

Quando as mães com segundos filhos me procuram, parte do meu trabalho passa por aqui também…por ajuda-las a gerir melhor este sentimento, por ajuda-las a organizar a logística familiar de forma a que todos possam manter o seu lugar. A que o segundo seja sempre UM. A que o primeiro seja sempre UM e possam ambos, de vez em quando, ser filhos ÚNICOS.

E hoje queria dizer-vos que não sei se esta sensação de ganho e de perda passa. Mas posso dizer-vos que melhora. Que se organiza. E que a vida é muito mais bonita a 4 (e se calhar ainda mais bonita a 5, 6 ou mais). E que  sim, que vale a pena. E que não, não estão sozinhas. E que na realidade estão simplesmente a criar e a construir uma Família. Só vossa.

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