“Como se fosse mãe solteira”

razvod
A meio da consulta disse-me “Trace-me um plano como se eu fosse mãe solteira”. Mas não o era. E foi assim que começou a nossa conversa. Duas mulheres, duas mães a falar sobre um pedido: ignorar que existia um pai.

Este texto de hoje nasce dessa conversa real. Não é, no entanto, um texto com objectivo de ser feminista, de debater a igualdade, de promover a parentalidade activa tanto da mãe como do pai. Na verdade creio que vai até noutro sentido. Pode ser estranho para algumas pessoas, mas penso que irá fazer sentido para muitas.

É verdade que ainda existem muitos pais que cuidam pouco. É verdade que ainda encontro (cada vez mais raros) pais que nunca mudaram uma fralda ou deram um banho. E sim, há alguns que nunca se levantam de noite, que raramente dão uma refeição, que nunca põem um soro no nariz enquanto o filho se debate.

São aqueles que depois dificilmente conseguem acalmar o filho que chora, serão aqueles que não vão entende-lo enquanto a fala não for perceptível e não serão certamente a primeira escolha de colo dos pequeninos. Alguns destes pais nunca se irão sentar com os filhos e ajuda-los nos TPC. Alguns nunca serão os heróis ou os confidentes. Mas alguns destes pais são aqueles que, quando deixam de ter um bebé e passam a ter uma criança, conseguem começar a cuidar, pelo simples facto de que se sentem mais confortáveis com miúdos mais crescidos.

Mas sim, ainda há muitos pais que não são, simplesmente, cuidadores. Destes, a maioria é o “brincalhão”. Atira ao ar, faz cocegas, corre, faz palhaçadas… mas fica-se por aqui. É um pouco ingrato pois na realidade têm a parte mais divertida e menos trabalhosa da parentalidade para eles. Deixando o resto para quem? Vamos adivinhar… 😉

Mas cada vez mais encontro pais que cuidam. Que cuidam tanto quanto a mãe. Que dão banho, que vestem, fazem totós, limpam rabinhos e narizes, dão colo, alimentam, mimam. Pais que cuidam e que amam. E não o fazem por serem “obrigados”, por imposição da mãe, porque querem “ajudar”. Fazem-no porque sentem-se bem assim, porque é isso que é ser pai e porque pai e mãe têm ambos importância e valor. E porque querem que os filhos cresçam tendo esse exemplo.

Na realidade, quando assim é, todos ganham com isso.

Quando se fala de pais que são os brincalhões mas não cuidadores, a maioria das mulheres fala entre si – às vezes baixinho, outras vezes em voz bem alta – sobre o “pouco que fazem” ou o “pouco que ajudam”. Algumas com raiva, outras com tristeza, muitas com desilusão – afinal, só depois de termos um filho passamos a conhecer de facto o outro. É o primeiro e verdadeiro projecto a dois em que a falta de sintonia se sente como em mais nada na vida.

Mas poucas entendem que por vezes quem cria esta dinâmica são elas mesmas. Tudo começa no momento em sabemos que estamos grávidas. O filho é muito mais nossos do que deles. Somos nós quem o sente crescer. É dentro de nós, ligados com um realismo mágico e irreversível que mãe e filho crescem e se desenvolvem. Somos nós que os parimos e, na maioria das vezes, somos nós que os alimentamos nos primeiros meses. Somos nós quem passa mais tempo com eles do que qualquer outra pessoa e somos nós que os sentimos nossos. Só nossos. Tão nossos.

E muitas mães sentem que, por conhecerem como ninguém aquele filho, que só elas terão a capacidade de os tranquilizar, de os deixar seguros. E ao longo dos dias, semanas e meses vão afastando o pai. Primeiro, “porque sou eu quem o amamenta e não vale a pena acordar-te”, depois porque “coitado, ele está a trabalhar e vou poupa-lo”, até que chega o dia em que sim, querem que o pai participe e ele simplesmente não sabe como participar. E dentro delas cresce uma parede de raiva contida pelo outro, que vai criando um muro intransponível – porque não é falado, desconstruído, conversado – até que um dia explode na cara de quem se ama, mas que já não se vê da mesma forma.

Não estou a “desculpar” os pais a quem lhes dá jeito passarem despercebidos ou aqueles que assumem que não querem cuidar. Aliás, não tenho de os culpar, apontar ou achar que eles é que estão mal. As pessoas são o que são e dentro das famílias, pai, mãe e filhos têm o seu lugar e papel. E ninguém tem nada com isso.

Estou a falar para nós, as mulheres. Para que não assumamos que “somos mães solteiras”. Para que não queiramos assumir que “estamos sozinhas”. Para que não queiramos achar que somos só nós quem faz tudo bem, acabando por alienar o pai…e depois considerando mais tarde que ele não sabe como participar.

Os nossos filhos merecem ter o melhor que lhes podemos dar de nós. Os dois. Sendo que pai e mãe podem nem estar juntos. Mas merecem que cada um dos progenitores seja mais do que biologia. Por isso, para aqueles pais que querem de facto participar (era o caso do marido desta mãe com tive esta conversa), deixem que o façam. Mesmo que fralda fique ao contrário, mesmo que gastem um rolo de papel de cozinha para limpar o miúdo depois de comer uma sopa, mesmo que o abanem depois de beber leite. E sim, mesmo que o bebé chore mais quando vê o pai. Não o socorram – o vosso filho está junto de quem mais o ama no mundo para além de vocês mesmas. Não os afastem interpondo-se entre eles, não lhes dando espaço para que se conheçam. Porque só assim um pai pode ser activo. E só assim vocês poderão nunca sentir-se “mães solteiras”. E só assim o vosso filho pode crescer com uma mãe e um pai activos, empenhados e que trabalham em equipa. Ele vai aprender convosco e procurar esta sintonia ao longo da sua vida.

 

 

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