Desligar para nos ligarmos

ecrã

Vamos ao parque: enquanto um pai empurra o baloiço à filha, está de telefone na mão, atento ao ecrã.

Outros miúdos correm e andam de escorrega sob o olhar atento dos pais… aos seus ecrãs.

No restaurante, a família inteira janta de telefone nas mãos. Pouco conversam.

Na praia os miúdos chamam, gritam pelos pais, mas eles frequentemente não ouvem porque estão a escrever a alguém naquele momento, a responder a emails de trabalho ou nas redes sociais.

No metro, aeroporto, cafés, esplanadas… o telefone parece estar acoplado às nossas mãos, aos nossos olhos e à nossa atenção.

Em casa, quando se chega cansado do trabalho e se tem tarefas para fazer, damos o tablet aos miúdos para que eles nos dêem tempo e alguma “paz”.  Mas frequentemente isso é… todos os dias.

O TELEFONE É A PRIMEIRA COISA EM QUE TOCAMOS MAL ACORDAMOS DE MANHÃ E A ÚLTIMA PARA ONDE OLHAMOS ANTES DE FECHAR OS OLHOS, JÁ DE LUZES APAGADAS.

Este texto não serve para apontar o dedo. Aliás, se me conhecem por aqui sabem que não aponto o dedo a ninguém. Nem sequer a quem o aponta a mim. 🙂

Entendo que a vida é corrida, por vezes demasiado pesada e que “desligar ligando-se” por vezes é das poucas formas que algumas pessoas têm para relaxar. E sim, também eu uso o ecrã com os meus filhos em alguns momentos.

Mas os ecrãs estão a tomar conta das nossas vidas. E, por mimetização – ainda mais grave – da vida dos nossos filhos. É, talvez, conversa de “velhota”, de pessoa anti-tecnologia (não o sou, pese embora seja um pouco pré-histórica tecnologicamente). Reconheço os benefícios de estarmos tão mais ligados a tudo, mas o que assisto quase diariamente é que por estarmos tão mais ligados a tudo, estamos cada vez mais desligados de nós e deles – dos nossos filhos.

Quase todos os dias, em conversa com os pais nas consultas, ao organizar os dias da família tento arranjar-lhes TEMPO. Tempo de conexão, tempo real. Sem ecrãs por perto. Além do prejuízo em relação ao sono – já vários estudos demonstraram que o ecrã interfere com a qualidade do nosso descanso – há um prejuízo enorme e incomensurável: o de perdermos diariamente momentos dos nossos filhos. “Ah, mas eu estou lá nos momentos importantes e quando é preciso”. Mas sabem…por vezes os momentos importantes são os mais pequeninos. Os do dia-a-dia. Não são as férias que constroem a nossa relação com a família. Não são os momentos de festa. Não são as excepções. O que constrói (ou destrói) a nossa relação familiar é o dia-a-dia. A forma como os olhamos, como eles aprendem a ser olhados e como passam, depois, a olhar para nós.

Os nossos filhos precisam de nós. Precisam de brincar, correr, saltar, trepar, pintar, sujar-se, aborrecer-se. E precisam de nós. Olho no olho. No dia-a-dia.

Os ecrãs podem salvar-nos por vezes. Em dias particularmente duros, em momentos de reunião de crescidos, em alguns locais menos permeáveis ao ruído e energia das crianças. Mas usados diariamente como substitutos de conversa, de risadas, de silêncios acabam por impedir a ligação entre nós e os nossos.

E os momentos perdidos vão-se acumulando, vão crescendo buracos de vazio que destroem as pontes que nós sentimos que deveriam existir entre as pessoas que se amam. Os telefones são hoje substitutos de brincadeira, de aprendizagem e de tempo de pais. Com todas as questões adjacentes ao tema, a que falo hoje é “apenas” o tempo que fica por viver e que não dá para voltar a pôr no play como um vídeo do youtube a que se assiste dezenas de vezes.

E se a partir de hoje, ao chegarmos a casa ou a partir de uma determinada hora que definimos em família, deixássemos os telefones desligados? Ou no silêncio noutra divisão da casa? Para nos concentramos em nós e neles? Eu sei que nos primeiros dias pode até ser difícil, mas garanto-vos que quando forem dormir irão de coração muito mais cheio. E quem se deita de coração cheio, dorme bem melhor.

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