Esta é a “nossa” aldeia

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Há uma razão para as mães gostarem de falar. Falar, falar muito, rir, conectar-se, encontrar pontos comuns de partilha e desabafar. É completamente verdade aqueles clichés dos homens que mencionam que as mulheres falam pelos cotovelos. Fazemo-lo nos cafés, no supermercado, ao telefone, nas redes sociais, em grupos criados para esse efeito, em lojas… Há uma razão profundamente arreigada em nós, mulheres, para conversarmos tanto. A mesma razão que leva mães, tantas vezes inseguras e ansiosas, a procurar contacto com outras: temos uma necessidade intrínseca de partilha, de aprendizagem, de empatia. Precisamos de chorar, rir, amar e sentirmo-nos amadas. E hoje em dia, temos poucas oportunidades para o fazermos.

Mas se biologicamente somos muito parecidas aos que eram os nossos antepassados, na realidade, a nossa sociedade alterou-se tanto que nós ainda não soubemos (ou conseguimos) adaptar também a nossa biologia. Até há cerca de 100 anos, as mulheres viviam em pequenos grupos familiares, orientadas para a comunidade, faziam parte do bairro, do grupo da igreja, de pequenos grupos de outras mulheres com causas ou problemas em comum. Entre elas formavam uma aldeia. Uma comunidade. E este tipo de associação faz muito mais sentido pois somos desenhados para nos agrupar – é a natureza da nossa espécie e acima de tudo do nosso género. Somos feitas para ser mães em conjunto, com outras mães, com os mais velhos, as tias, as irmãs e os primos que nos amparam e ajudam no dia-a-dia. Somos feitas para assistir, integrar, observar com as outras mulheres – é assim que aprendemos. Não, não somos feitas para fazermos isto sozinhas. E“isto”é ser Mãe.

Hoje em dia, somos muito mais isoladas enquanto mulheres e enquanto mães. Temos famílias pequenas, estamos frequentemente deslocalizadas, trabalhamos longe de casa. Somos mães a tempo inteiro e profissionais a tempo inteiro. Somos chefs, empregadas domésticas, gestoras de conflitos e de problemas, somos babysitters, negociadoras… Tentamos – e conseguimos! – fazer o trabalho de uma aldeia inteira sozinhas, mas sem deixar de sentir um peso de culpa e tantas vezes de fracasso por não alcançarmos as metas a que nos propomos.

Na “tal” aldeia de antigamente não precisávamos de ler livros sobre parentalidade, não precisávamos de enfrentar situações novas sozinhas. Tínhamos um grupo, um clã unido que nos cuidava e amparava. Com quem tirávamos dúvidas e a quem nos agarrávamos quando precisávamos. Hoje, temos a internet, temos desconhecidas sem rosto que por vezes nos lançam pedras, temos livros que tentam ajudar. Mas estamos quase sempre sozinhas. Substituímos a aldeia por uma entidade: nós mesmas.

Substituímos uma casa cheia de mulheres por um quarto vazio. É uma grande perda na parentalidade porque criar sozinho ou, com sorte, criar a dois, é tão mais difícil do que criar em família.

É por isso que fico tão feliz e orgulhosa quando percebo que, de uma forma tão diferente, mas real, consegui criar uma pequena aldeia aqui. Com as vossas partilhas, os vossos testemunhos, as dúvidas, os medos, as conquistas.

Obrigada por fazerem parte dela.

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