Alimentação e Linguagem: que relação?

criança a comer

Nas minhas consultas com as mães que me procuram para as ajudar com a difícil alimentação dos mais pequenos da casa quase sempre as questões são meramente comportamentais/emocionais.

No entanto, nas situações em que me parece que existe alguma dificuldade física da criança converso com os pais sobre isso. Há, obviamente, sinais de “alarme” que me fazem questionar os pais… quando sinto que poderá haver algo mais a influenciar a alimentação do pequenino do que apenas o comportamento dele e dos pais, remeto sempre a família para a consulta com um bom terapeuta da fala. 

Quando o faço, quase sempre só olhada com surpresa. Mas os terapeutas da fala não servem apenas para ajudar os miúdos na fala?! Mas e se ele ainda nem fala como posso eu estar a encaminhar para terapia da fala?!

Na realidade, os terapeutas da fala fazem muito mais do que ajudar os nossos filhos a falar “bem”. E são imprescindíveis para detectar alguma hipersensibilidade oral que possa contribuir para difícil alimentação dos miúdos. Por isso, resolvi falar com uma das melhores profissionais que conheço – a Joana Rombert – e pedir-lhe um pequeno artigo sobre este tema.

A Joana Rombert é terapeuta da fala e autora de livros tão giros como “O gato comeu-te a língua”. Trabalha no Hospital de Santa Maria e colabora com a Fundação Brazelton/Gomes-Pedro. É uma excelente profissional e uma referência no nosso país. Acho que vão gostar de a ler!

Deixo-vos aqui as suas palavras.

 

Alimentação e linguagem: que relação?

Será que existe uma relação entre o desenvolvimento da alimentação e o desenvolvimento da linguagem e da fala? E será que as crianças que se alimentam melhor falam melhor? O que significa alimentar-se bem? Significa mamar bem, saber engolir e mastigar ou comer de uma forma saudável?

De facto, as mudanças pelas quais o bebé vai passando na alimentação, desde que suga o leite, que come à colher as papas ou purés, que bebe pelo copo até mastigar o alimento mais sólido, funcionam como um óptimo exercício para os músculos da boca, que são os mesmos que usamos quando falamos. É como se houvesse gradualmente uma preparação da boca tanto para nos alimentarmos como para falarmos. As principais mudanças na alimentação coincidem com as etapas de maior desenvolvimento dos sons da fala. Gradualmente, o espaço dentro da boca da criança aumenta, o que irá permitir fazer mais movimentos da língua e produzir mais sons.

Cada criança tem o seu ritmo e algumas prolongam as suas etapas na alimentação, e isso não significa, necessariamente, que irão ter dificuldades ao nível da fala ou da linguagem. No entanto, durante o desenvolvimento oral, estas funções têm um tempo próprio e seguro para acontecer, correndo o risco de se sobreporem umas às outras e de atrasar o seu desenvolvimento.

 

Assim é essencial que pais e educadores estejam atentos aos sinais de alarme que a criança pode apresentar na alimentação:

  • Dificuldades em sugar na mama ou biberon
  • Usar de forma prolongada a chucha ou biberon
  • Respirar pela boca e babar-se de forma exagerada
  • Engasgar-se, vomitar ou tossir durante a alimentação
  • Dificuldades em mastigar ou engolir
  • Armazenar comida nos cantos da boca ou “fazer bola” nalguns alimentos
  • Recusar de alimentos de certas consistências, texturas, sabores ou temperaturas
  • Recusar lavar os dentes
  • Perder peso

Sempre que existem sinais de alarme, é aconselhável falar com o pediatra ou médico assistente, onde os pais deverão pôr as suas dúvidas e, se necessário, a criança ser observada por equipas multidisciplinares incluindo um terapeuta da fala dedicado a esta área.

 

Deste modo, promover uma alimentação saudável, em que a criança terá gosto de se alimentar, em que saberá mastigar e engolir e que gostará de estar sentada à mesa com a família, constituirá um fator positivo para um desenvolvimento mais harmonioso da fala e da linguagem.

Joana Rombert

 

 

 

 

Trackback from your site.

You might also like

Leave a Reply