ACTIVA – Crianças Irrequietas e Hiperactivas

“Não há tolerância para crianças irrequietas”: descubra porquê e que problemas está a criar

Cada vez se prescrevem mais medicamentos para a Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção. Mas será que o número de crianças com este problema aumentou assim tanto? Um pedopsiquiatra e uma especialista em sono infantil acreditam que o estilo de vida a que os nossos miúdos estão sujeitos não está a ajudar.

2016-03-18-Hipertaivos-ou-Irrequietos

O novo fantasma dos pais: ter um filho ‘hiperativo’, que não para quieto um segundo, não está atento na escola, irritável, com problemas de comportamento. A Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção (PHDA) só costuma ser diagnosticada depois dos 5 ou 6 anos, mas há pais que se queixam disso cada vez mais cedo. Filipa Sommerfeldt Fernandes, autora de ‘10 dias para ensinar o seu filho a dormir’ (Esfera dos Livros), dá palestras, workshops e consultas de aconselhamento sobre como regular o sono infantil e é testemunha do desespero deles. “Há pais de bebés de 9 meses que me mandam mensagens a dizer que o filho deve ser hiperativo porque não dorme. Hiperativo, com 9 meses?…”

O certo é que o recurso a medicamentos para tratar a PHDA mostra uma “tendência de crescimento”, segundo um relatório do Infarmed, publicado em novembro passado. Em 2014 dispensaram-se 276.029 embalagens de metilfenidato, o princípio ativo do medicamento psicoestimulante mais frequentemente receitado para a PHDA. O aumento foi de 30% relativamente a 2013, informou o Diário de Notícias. Os tratamentos para esta perturbação também custaram mais de 8 milhões de euros, 5 milhões dos quais suportados pelos utentes, outro “crescimento significativo”. Estão a ser mais prescritos em hospitais ou clínicas privadas (39%), seguidos dos hospitais públicos (37%) e cuidados de saúde primários (22%). Viana do Castelo e Viseu são os distritos onde é mais usado.

E se não for hiperatividade?
“É um aumento relativamente significativo”, comenta o pedopsiquiatra Pedro Caldeira da Silva, da Unidade da Primeira Infância do Hospital D. Estefânia. “São sobretudo prescritos por pediatras, neuropediatras e pedopsiquiatras, que penso terem sido os últimos a entrarem neste comboio da prescrição, e tiveram que o fazer por uma questão de mercado. É verdade que estes medicamentos são eficazes e que ajudam crianças. Mas, provavelmente, há uma utilização um pouco excessiva e algum facilitismo na prescrição, porque o medicamento dá resultado – põe as crianças sossegadas e ajuda-as nos estudos. Mas um tipo de intervenção mais psicológica demora mais tempo.
As consequências já estão à vista. “Há crianças que estão a ser medicadas e não deviam, outras estão a ser medicadas porque têm alguns sintomas e beneficiam com a medicação, mas é como se fosse dopping, é batota. E até há adultos e jovens estudantes universitários que usam o metilfenidato porque é uma substância que melhora o desempenho.”
O uso da medicação numa criança que nem precisaria de a tomar pode nem provocar efeitos secundários, diz o pedopsiquiatra. “Nada, além da ideia perniciosa de que tudo se resolve rapidamente e com pastilhas. Mas há crianças que os apresentam: o principal e mais frequente é perda de apetite, que pode levar ao emagrecimento. Algumas crianças reportam que não se sentem elas próprias. Não leva a uma perturbação de personalidade mas pode levar à alteração da perceção de si próprio. Prescrevo a medicação a crianças que precisam, sim, mas dá-la indiscriminadamente é uma má prática.”
O mais importante é que se faça um diagnóstico criterioso, até porque muitas vezes o problema nem é a hiperatividade e sim “depressão ou início de perturbações bipolares, que podem ser confundidos com hiperatividade. Na criança, a depressão pode ter este aspeto de comportamento ruidoso, irritabilidade, ansiedade. E há medicamentos que mascaram estes sintomas – o metilfenidato pode ser um deles.”

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