A anormalidade do “é normal”

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Desculpem, mas não. Não é “normal” que os nossos filhos não durmam durante meses ou anos.

Não é “normal” que bebés com 12 ou mais meses continuem a alimentar-se de noite de 2 em 2h ou de 3 em 3h como se fossem recém-nascidos. Muito menos “normal” é achar que precisam de mamar de hora em hora a partir da meia-noite. Ou ainda que permanecem em pico de crescimento constante e que isso justifica que durante meses (muitos!) comam mais de noite do que de dia.

Não. Não é “normal” que uma criança pequena fique num estado enorme de ansiedade quando vai para a cama e sinta que só consegue adormecer com a mãe ao lado. Agarrando na sua mão. Mexendo no seu cabelo. Enfiando os seus dedinhos nas orelhas, nariz ou boca da mãe ou do pai.

Não é “normal” que filhos se deitem na cama dos pais a ver vídeos no tablet e adormeçam depois de pai e mãe já estarem a dormir. Também não é “normal” que miúdos com 2 e 3 anos só adormeçam às 23h e que até lá andem em verdadeiras guerras com os pais para não dormir.

E… novamente vou ter de dizer que não é “normal” que com a chegada da noite muitas mães comecem a entrar em pânico por saberem que não vão conseguir descansar. Não é suposto, só porque nos tornamos mães, aceitarmos que não descansaremos nem dormiremos mais do que 2 ou 3 horas seguidas. Não é suposto aceitarmos que é assim tão duro.

Não é “normal” haver tantas famílias em verdadeiro modo de sobrevivência. Tentando manter-se simplesmente à tona, suprindo as necessidades básicas (suas e dos miúdos) mas não conseguindo ir além disto. A magia da maternidade perde-se, desconhece-se, ignora-se quando vivemos assim. Como ouvi uma mãe uma vez dizer “não se ama menos, ama-se pior”.

Não, não é “normal” que mãe e pai não tenham meia hora a sós, juntos, tranquilos em semanas ou meses… ou anos. Não é normal que entrem em conflito constante a meio da noite e também de dia por se encontrarem em estado tal de cansaço que se vão esquecendo – uma vez mais! – do Amor.

Não é “normal” que ao descreverem como são os seus filhos e as suas vidas tantas mães chorem à minha frente. Tantas sintam que poderia ser tão melhor, se simplesmente descansassem.

Não é “normal” que mães e pais fiquem fisicamente doentes por não dormir. Que percam peso, que percam cabelo, que percam empregos, que percam energia. Que adormeçam ao volante, que tenham acidentes. Que percam a vida.

Esta noção idiota de “normalidade”, da mãe que TEM de aguentar tudo, que só é perfeita se aceitar que é assim, que o pai vai dormir para a sala para ela ficar no quarto com um bebé que não dorme, que um dia terá até saudades deste tempo… é tudo menos “normal”.

Ter a noção de que perderemos noites (muitas!); que não dormiremos até tarde ao sábado ou domingo de manhã; que o nosso tempo não mais será nosso; que eles (os filhos) ocupam o nosso coração, a nossa vida e muito, muito espaço; que a nossa vida nunca mais será a mesma… isso sim, é normal. Mas o sofrimento que vem com a privação de sono (não com as noites mal dormidas de bebés que se estão ainda a ajustar à vida extra-uterina, não com as noites em que medimos febre, aspiramos narizes, levamos para o hospital, não com as noites que os abraçamos ou trazemos para a nossa cama depois de um pesadelo, não com as noites em que os consolamos pelo seu primeiro desgosto amoroso) é real. E não deve ser menosprezado ou considerado “normal”.

Dia após dia, vou conhecendo e contactando com cada vez mais famílias. São anos a estar diariamente com mãe e pais e bebés ou crianças que não dormem. Quando penso que  já encontrei de tudo, parece que conheço mais alguém com uma história de arrepiar. E infelizmente, por trás das histórias mais trágicas, mais tristes, está sempre esta ideia absurda de que tudo é “normal”. Quantas mães me disseram já que não sabiam que “poderia ser sequer de outra maneira”! Achar que tudo é “normal”, que não passa de uma fase, resulta quase sempre em simplesmente não fazer nada para mudar.

E não fazer nada para mudar acaba, frequentemente, na cristalização de comportamentos que podem perdurar anos. E em tristeza, cansaço e perda. Perda de momentos que guardaríamos tão melhor se tivéssemos apenas descansado.

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