A cada família, a sua solução

Caucasian mother and daughter hugging on sofa

A Ana esperara muito para ser Mãe. A natureza não lhe dera um filho, mas ela recebeu a Luísa aos 3 anos de idade e todo o Amor que tinha guardado dentro de si, transbordou.

Luísa tinha estado institucionalizada nos últimos tempos da sua vida. Vítima de maus tratos e de abandono ainda bebé, foi retirada à família e esperava por uma oportunidade para ter uma Mãe de verdade. 

Quando falámos, a Ana debatia-se com um “problema”. Tinha uma filha que amava, que via cada vez mais feliz, que sorria durante o dia, mas que tinha medo da noite. (quando ainda estava com a sua família biológica, a Luísa era deixada frequentemente sozinha de noite). Então, sempre que a noite chegava, a Luísa ia para a cama da mãe Ana. A Ana entendia e tinha prometido a si mesma que nunca iria deixar que a sua Luísa se sentisse só ou com medo. Mas passava a noite a levar com os pontapés de uma garota agitada de 4 anos e não dormia. E o cansaço estava a começar a pesar demais… A Ana era mãe solteira. Estava sozinha com a filha e o cansaço, sem ter ninguém para dividir as tarefas, era ainda mais pesado.

Quando se promove a importância do sono – como o faço diariamente no meu trabalho – é preciso ter sensibilidade para entender cada caso como único. Cada criança e cada família com a sua história particular. Uma menina de 4 anos, com medos e traumas, que precisa de contacto e presença para se sentir segura, não pode ser afastada para o seu quarto próprio só porque “sim”. Ao ficar demasiado nervosa e ansiosa, o resultado de noite será exatamente o inverso àquele que queremos promover…

Mas o cansaço da Mãe nunca é de desvalorizar. Porque sabemos que somos melhores em tudo se estivermos descansadas e sãs. E sim, estaremos mais perto de ser a mãe que queremos e ambicionamos se tivermos disponibilidade mental e emocional para isso.

Na conversa com a Ana não foi difícil entender o que ambas precisavam. E colocámos uma caminha para a Luísa, junto à cama da mãe. Assumimos que era ali o seu lugar – no quarto da mãe – e não no quarto sozinha. Demos-lhe tempo, sem pressão, para que ela matasse sozinha todos os monstros da noite.

A Luísa ficou muito feliz por ter lugar junto à mãe. E passou a dormir tranquilamente a noite toda. A Ana ficou muito feliz porque passou a descansar no seu espaço, sem ter de dormir com uma garota mexeriqueira junto a ela. E ambas descansaram.

O mais bonito disto tudo, é que passado pouco tempo, a Luísa já não se debatia com monstros nocturnos e passou a ir para o seu quarto. Pelo próprio pé. Entendeu que ninguém a impedia de ter um espaço junto à mãe, se assim o quisesse. Mas entendeu também que esta Mãe estaria junto a ela, sempre. Mesmo que fisicamente não estivesse lá. (E essa para mim, é a maior forma de Amor).

Ensinar a dormir também é isto. Na minha vida e no meu trabalho é sempre isto: adequar a cada família aquilo que sei e que já experimentei com tantas outras.

Conheci e falei com a Ana há uns dois anos. Há umas semanas, conversei com outra mãe – amiga da Ana – que me disse que ambas estão óptimas. Felizes. Que a Luísa dorme muito bem no seu quarto. E que são as duas uma família feliz.

E eu sorri. Com aquele sorriso que vem directamente do coração.

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