Amamos menos os nossos filhos quando eles não dormem?

Germany, Cologne, Mother and daughter smiling, close up

Ui! Já estou a ver todas as “mães perfeitas” a olhar para o titulo deste artigo e a pensar mais uma vez que sou o Anti-Cristo das Mães.

Para acalmar desde já os corações de quem o possa ter descompassado, a minha resposta é…NÃO! Não os amamos menos.

MAS… é preciso falar sobre isto. Com Amor e, principalmente, com Tolerância.

Na semana passada numa consulta, uma das minhas mães em lágrimas dizia-me: “Filipa, se soubesse o rancor que tenho por ele (o filho) durante a noite! Há momentos em que tenho-lhe mesmo tanta raiva…“. Dizia isto com lágrimas porque, de facto, AMA o filho mais do que tudo. E porque pensar algo assim – e acima de tudo verbaliza-lo – a fazia sentir terrivelmente culpada.

Mas é Humana.

É uma mãe real, normal.

É uma pessoa.

E, como tal, precisa de descansar.

Fiquei a pensar nela durante vários dias. Até que hoje, conheci novamente uma mãe que me disse algo muito parecido. Mas que acrescentou que ao falar disso recentemente no grupo do pós parto a julgaram e, inclusivamente, a ofenderam.

Não é a primeira vez que oiço desabafos destes. Ao longo dos últimos anos, escutei-o várias vezes. Mas  é algo tão íntimo, um sentimento tão duro, tão cru… que quase sinto algum pudor em escrever sobre ele. Ainda assim, é um sentimento real. E que surge em muitas de nós.

Quando, noite após noite, durante meses e/anos os nossos filhos nos acordam várias vezes, gritam ou choram na cama, no nosso colo, esperneiam, arqueiam as costas, levantam-se vezes sem conta no berço…há momentos em que é normal sentir raiva. Sim! Raiva de um filho! Há quem tenha vontade de os atirar pela janela (não acredito que literalmente), há quem pense em deixa-los à porta da igreja (também não me parece que o façam), mas.. há de facto quem até lhes dê uma palmada ou uns gritos bem zangados e irritados.

Quando sabem que eles não têm culpa.

Mas não é à toa que a privação de sono é uma forma de tortura. E há famílias que passam por este tipo de tortura durante tempo a mais.

Hoje em dia encontro cada vez mais famílias que me procuram antes de existirem sequer noites mal dormidas. Mas ainda assim, há ainda muita gente que antes de tocar neste limite não procura ajuda.  É, por isso, urgente dizer em voz alta que não é preciso chegar a este ponto! Não é preciso chegarmos a um tal nível de cansaço que nos pareça que, de noite, os amamos menos. 

E para responder à pergunta… não. Não os amamos menos. Estamos apenas cansadas. O Amor que por eles temos é incomensurável. Não tem nome. Não tem limites. E na realidade, o Amor que também eles têm por nós é igual. Incondicional. O que não significa que não haja momentos em que vacilamos. Em que trememos. Em que duvidamos. Em que nos irritamos. Mas não fará tudo isto parte desta aventura da maternidade?

As conversas das “super mães perfeitas que nunca duvidam e que aguentam tudo com um sorriso” são na grande maioria tretas de mães que não querem admitir perante o mundo que não são perfeitas nem têm filhos perfeitos.

O que estas mães parecem não saber (embora achem que sabem tudo!) é que a magia deste Amor tão especial entre pais e filhos dá-se nos momentos mais difíceis. Naqueles em que mesmo quando sentimos rancor ou raiva deles em noites mal dormidas, mesmo quando nos fazem passar algumas vergonhas, mesmo quando são reactivos, combativos, mal-educados, mesmo quando nos batem ou têm comportamentos pouco adequados…. a magia é que para nós, mães,  eles são sempre perfeitos. E sabem uma coisa?… para eles, enquanto são puros, inocentes e tão nossos, nós também somos perfeitas. As mães mais perfeitas do mundo.

 

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