As minhas mães deprimidas

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Muitas das mães que me procuram estão à beira da depressão ou já bem dentro dela. Algumas são acompanhadas por médicos, outras ainda não se aperceberam de que precisam de ajuda. Mas na realidade, uma mãe que não dorme mais de 3 ou 4h seguidas por noite durante um longo período de tempo tem maiores possibilidades de vir a sofrer de depressão do que uma mãe descansada.

As minhas mães deprimidas podem estar cansadas demais até para chorar.

As minhas mães deprimidas sentem-se pequenas, diminuídas porque sabem que há quem esteja “bem pior” e que “não se deveriam sentir assim”. À frustração e impotência soma-se a culpa silenciosa por terem a certeza no seu íntimo de que não deveriam estar tão tristes, mas não conseguirem sair desse estado.

As minhas mães deprimidas olham as fotos das famílias perfeitas, com crianças imaculadas, mães sem olheiras e de unhas impecáveis, casas arrumadas e não se apercebem de que isso é só para a fotografia.

As minhas mães deprimidas leem os relatos das mães que encaram as noites sem dormir com um sorriso, que carregam os filhos nos braços 24h cantando, que dizem conseguir seguir o seu instinto sem nunca hesitarem, como mais uma prova do seu falhanço e da sua fraqueza.

As minhas mães deprimidas interiorizam a sua raiva. As suas casas estão quase sempre viradas do avesso. E a raiva cresce, por si mesmas, por sentirem que deveriam não só cuidar da casa, mas do marido e delas próprias.

As minhas mães deprimidas acabam invariavelmente a ligar a televisão para os seus bebés porque precisam de algum tempo para parar, mas estão durante esse tempo a lutar contra elas próprias por sentirem que os pequeninos deveriam estar a brincar no parque, a explorar o mundo ou porque leram que ver TV faz mal às crianças.

As minhas mães deprimidas ficam zangadas interiormente com os maridos porque eles saem todos os dias para ir trabalhar e têm tempo para eles, nem que seja no escritório.

As minhas mães deprimidas pensam muitas vezes – com vergonha e têm até medo de verbalizar –  que sentem saudades do tempo em que eram apenas elas e que poderiam simplesmente pegar no casaco e sair porta fora.

As minhas mães deprimidas sentem todas as “guerras”: mudar a fralda quando estavam para sair de casa já atrasadas, vestir alguém que se transforma num contorcionista, calçar os sapatos pela 3ª vez a quem insiste em tira-los, ouvir os gritos de quem não se quer sentar na cadeira do carro, voltar a casa porque se esqueceu da chucha, ouvir as queixas do banco de trás durante todo o trajecto.

As minhas mães deprimidas para mim são só Mães. Algumas muito cansadas. Algumas tristes. Algumas ansiosas. Mas são Mães. E a grande maioria delas poderia estar mais feliz se simplesmente dormisse mais e melhor.

Dormir é uma parte inevitável e crucial do nosso bem-estar e sim… da nossa felicidade. Quem passa por isso entende. Quem passa por isso não julga.

 

 

 

 

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