E quando nos “arrependemos”?

Mother with daughter (6-11 months) in living room

“Sabe Filipa, há momentos em que penso O QUE É QUE EU FUI FAZER?!”

Esta mãe referia-se ao facto de ter tido um segundo filho. As lágrimas chegaram-lhe aos olhos e ela mandou-as de volta rapidamente. A conversa era entre mim e ela apenas. Entre duas pessoas que já se conheciam: falámos há uns anos a respeito do primeiro filho, depois do segundo e trocámos muitas palavras depois disso. O comentário foi desesperado, cheia de culpa. Mas honesto. Percebi-a imediatamente. Não me chocou absolutamente nada. Até porque já a ouvi muitas vezes.

Falávamos de sono, claro. Do difícil que tinha sido com o primeiro. Da vitória que era ter agora um menino crescido, feliz, tranquilo e que dormia muito bem. Falávamos da personalidade dele: pacato, calmo, obediente… um garoto de 5 anos que esperava tranquilamente na cama pela mãe enquanto ela tinha de cuidar do mais novo. E falávamos do mais novo… com 2 anos e meio estava agora a começar a dormir uma noite seguida. Mas tinha-o feito apenas uns dias e depois de a mãe o ter começado a ensinar a adormecer sozinho. O mais novo é um piratinha, afasta-se da mãe, tem uma personalidade mais “forte”, mais “difícil”, mais “exigente”. Provavelmente a dificuldade em lidar com ele não seria tanta se esta mãe não estivesse exausta e não tivesse passado os últimos 5 anos da sua vida a sofrer com uma forte privação de sono (quando um começou a dormir bem, nasceu o outro).

Esta mãe teve a consciência de pedir ajuda e estava agora medicada. Algo para a ajudar a lidar com a ansiedade típica de quem não descansa, com o cansaço extremo e com o facto de já nem saber dormir, mesmo nas noites em que o poderia fazer (sabiam que há uma enorme relação entre a privação de sono e a depressão pós parto?).

E sim, esta mãe disse-o em voz alta, provavelmente pela primeira vez e calando-se em seguida: O que fui eu fazer ao ter outro filho? As coisas com o primeiro já estavam tão bem, estávamos tão felizes, éramos mais livres… e agora é tudo tão mais difícil…”

É obvio que aqui não falta AMOR. Amor incondicional. Poupem-me as mães “perfeitas” que nunca têm pensamentos destes! Aqui não falta Apego. Não falta calma, disponibilidade, paciência. Aqui não falta nada disso. Aqui apenas falta DESCANSO. E por menos importância que se queira dar ao descanso e ao sono, por mais bichos papões em que queiramos transformar uma boa higiene de sono, por mais que nos queiramos assumir como mães perfeitas que tudo aguentam com um sorriso e que não tiveram filhos para serem Nenucos… a realidade é que a falta de sono faz-nos muitas vezes amar pior. Não menos, mas pior.

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