Ensinar a dormir é importante?

abraços

“Acordo de manhã com a cabeça a latejar.”

“De noite tenho momentos em que me apetece espancar a minha filha.”

“Eu e o meu marido separámo-nos e grande parte da <<culpa>> é do cansaço, do não dormir seguido há demasiado tempo. Andamos sempre irritados.”

“Não tenho energia para fazer nada. Sinto que não sou a Mãe que queria ser, mas não consigo. Não tenho forças.”

“Quando se aproxima a noite fico num estado de ansiedade enorme já a antever o terror que vai ser.”

“Grito com o meu filho para que durma.” “Dei-lhe uma palmada porque ele não parava de chorar de noite.” “Abanei-o com força porque não conseguia entender o que ele queria.”

“Eu e o meu marido não dormimos juntos há quase 2 anos. O nosso filho dorme comigo e o pai na sala.”

Estas são algumas das frases que vou ouvindo todos os dias no meu trabalho. Contacto com mães e pais de filhos pequenos que não dormem bem e se há coisa que conheço e compreendo muito bem é o cansaço, a frustração e muitas vezes o desespero de quem não dorme noites completas há muito tempo.

Já assisti a cenas bastante complicadas, momentos muito tensos, já conheci histórias muito tristes.. e é por isso impossível para mim desvalorizar este cansaço. E este cansaço não afecta apenas os pais. Afecta também os bebés e as crianças. Pequenos que acordam várias vezes por noite quando já seria expectável que dormissem várias horas seguidas não descansam como deveriam. Porque podemos até estar 12h numa cama, mas se acordarmos várias vezes o nosso descanso não é reparador.

O principal inimigo do descanso acaba por ser frequentemente as ideias preconcebidas e os juízos de valor de que as mães são alvo. E por causa disso encontro tantas mães à beira da depressão. Somos bombardeadas com informações sobre como fazer melhor, como sermos melhores mães, como termos os filhos mais apegados, como criarmos as crianças para que sejam adultos felizes e equilibrados… estudos, polémicas, lados “negros”, fundamentalismos… uma teia que se tece ao nosso redor e da qual não nos conseguimos desenredar. Sinto isso como Mãe. Sinto isso também como profissional. No meu trabalho acredito piamente na necessidade dos nossos filhos terem uma boa higiene de sono, de terem bons rituais, de saberem adormecer sozinhos. Mas frequentemente encontro quem confunda estes princípios com “não dar colo”, “não mimar”, “não acarinhar”. E são estas ideias que passam para mães cansadas que depois acabam por temer mudar algo que está – literalmente – a arruinar a sua saúde, a sua harmonia em casa, a sua energia, a forma como encaram a maternidade.  Há mães que ficam presas nestas redes que só lhes trazem insegurança, desgaste e cansaço.

Como Mãe não preciso que ninguém me diga para acarinhar os meus filhos, para lhes dar colo, mimo e atenção. Para os olhar nos olhos, para me perder nos seus abraços. E as “minhas” mães também não. Não precisamos disso porque amamos os nosso filhos acima de qualquer outra coisa e porque ama-los é o que mais gostamos de fazer. Mas o mimo e o colo não têm de ser exclusivos da hora de deitar e se podemos e devemos acarinhar os nossos filhos nesse momento, também devemos permitir que consigam adormecer de forma independente – exatamente para que não dependam de nós para (re)adormecer. O equilíbrio é fundamental.

Adormecer na maminha ou no colo é perfeitamente normal. Não tem nada de errado. Adormecer junto aos nossos filhos também. A dar-lhes a mão, a cantar, a fazer festinhas… não acredito que haja apenas uma forma. Uma maneira correcta. Se corre bem não encontro motivo algum para mudar. Pais e filhos descansam em harmonia e isso é o que realmente importa.

Mas, quando a forma de adormecer condiciona o descanso noturno e os nossos filhos acordam várias vezes precisando de nós para voltar a dormir, então defendo que devemos mudar esse comportamento.  Não… não significa deixa-los a berrar sozinhos num quarto escuro. Não, não significa não atende-los. Ensinar não é “abandonar”. Até porque com a mãe ou o pai ao lado, atentos, que os acarinham e tranquilizam,  dificilmente alguém se poderá sentir abandonado.

Todas as moedas têm duas faces. Não há uma verdade universal. Mas para mim é bem verdade o estado de ansiedade que muitas famílias vivem à noite. Os pais que desesperam. Os miúdos que, quase ao adormecer, se esforçam por levantar a cabecinha e chamar “Mãe?” porque já perceberam que eventualmente a mãe acaba por ir embora.

Para mim é bem real a quantidade de bebés que choram e se agitam mesmo no colo das mães.

Para mim é bem real a quantidade de crianças de 2 e 3 anos que bebem leite 3 e 4 vezes por noite.

Para mim é bem real os miúdos que adormecem depois dos pais, a olhar a TV ou o tablet, enquanto os pais ao seu lado já adormeceram na sua cama.

E estas são as minhas verdades.

Qualquer que seja a vossa, se sentirem que não é a “certa” para vocês, se sentirem que podiam/queriam ter outra… procurem alternativas. Ser Mãe e Pai não precisa de ser tão duro. Já bastam as doenças, as separações, as decisões e escolhas difíceis que teremos de fazer por e com os nossos filhos.

Ser Mãe e Pai é uma aventura mágica. Que deve ser vivida em harmonia e com certeza de que somos o melhor que podemos ser (não os perfeitos, os irreais dos livros e dos blogues).

Uma aventura que deve ser vivida com a certeza de que estamos no nosso melhor – para ama-los também da melhor forma possível.

 

 

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