O Instinto e o Manual de Instruções

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“Ouve o teu instinto”. “Só tu conheces o teu bebé”. “O que importa é o bebé”. “A maternidade é a tua melhor experiência”. “A amamentação é um direito do bebé”. “Se ouvires o teu filho vais conhece-lo”.

São dezenas as frases feitas sobre a maternidade cor-de-rosa. Se não são verdade? Muitas serão totalmente verdade. O que não quer necessariamente dizer que sejam verdade para TODAS as mães e pais. Ao longo dos anos tenho tido esta conversa recorrentemente com famílias com quem converso. Ouviram, desde o início, que devem seguir o seu instinto, que tudo passa e que só elas podem conhecer os filhos. Mas e quando uma mãe se sente perdida? E quando uma mãe sente que não consegue entender o seu bebé? E quando sente que afinal esta pode não estar a ser a experiência com que sonhou?

O sono dos bebés é um tema muito polémico. Honestamente não sei porquê – pois se é só a mãe que conhece os seus filhos e sabe o que é melhor para eles, não haveria razão para se preocupar com o que outras fazem. Mas há pessoas que gostam tanto do meu trabalho e se preocupam tanto com ele que não conseguem deixar de falar sobre ele ou concentrar-se apenas no seu. 🙂  são quase sempre estas que defendem que o sono não se ensina, que se as mães ouvirem os seus bebés e tiverem paciência tudo vai correr bem.

Mas e quando não corre? O que acontece é que chegam até mim destruídas. Não “apenas” pela privação de descanso. Não “apenas” porque sentem que não estão a usufruir da maternidade. Não “apenas” porque sentem que os dias passam, os filhos crescem e elas não têm força anímica para os aproveitar ao máximo. Não “apenas” porque sentem que os seus filhos estão cansados e birrentos. Mas também pela enorme frustração que carregam por não conseguirem “ouvir” os seus filhos ou entende-los. Por sentirem que não têm o tal instinto ou a paciência e resiliência necessária para aguentar que passe. Por sentirem que se calhar não foram feitas para serem mães.

Quando impomos versões de nós mesmos aos outros numa altura em que eles estão frágeis e cansados quase sempre acabamos por colocar mais peso nos seus ombros. As crianças não têm um manual de instruções para o sono e nem sempre tudo funciona da mesma forma. Mas existem princípios transversais que costumam ajudar e alterações específicas pensadas para cada família que podem ser de enorme benefício.

E sim, mesmo quando somos as melhores mães do mundo, por vezes precisamos de alguém de fora que olhe para dentro de nós e nos ajude a encontrar o caminho.

A maioria das vezes é isto que acontece nas minhas consultas: digo aos pais exatamente aquilo que eles sabem, mas não verbalizaram ainda. Faço-os sair daquele loop de cansaço e rotina desorganizada para olharem para a família e entenderem que vale a pena tentar de outra forma. E  quase sempre resulta muito bem.

É muito difícil para uma mãe sentir que não está a conseguir. A sociedade impõe-no. A família – mesmo com a melhor das intenções, também. As frases feitas ao estilo “tudo é paz, tudo é amor, tudo é maravilhoso, tudo é instinto e tudo é perfeito, plim plim e faz-se magia” também.

Mas nem sempre o nosso bebé real e a mãe que nasce dentro de nós nos permite viver as coisas desta forma. O que não quer dizer que a maternidade não seja absolutamente a maior aventura das nossas vidas. O que não quer dizer que não sejamos totalmente apaixonadas pelos nossos filhos. Mas eles são mais do que filhos – pelo menos para mim. Eles são o nosso Projecto de Vida. E este projecto constrói-se, trabalha-se, pensa-se, sente-se. E não é linear, nem sempre é fácil só porque há Amor ou Instinto. O Amor ajuda. Dá-nos força. Manda-nos para a frente. Mas não quer dizer que não haja muito trabalho na maternidade, muito esforço e muito empenho.

A maternidade não é cor-de-rosa. Tem todo o espectro de cores nela contida.

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