Sinto que morri…

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“Antes de mais e peço desculpa, chamo-me Ana, tenho 28 anos e uma filha de quase 20 meses. Desde que ela nasceu que sinto que eu morri. Tento desde aí sorrir e mostrar que esta tudo sempre bem mas não está. A Minha bebé desde que nasceu que tem 1 sono atribulado, se é que lhe posso chamar sono(…)”

Recebo mensagens todos os dias. Muitas.

Estou com Mães e Pais diariamente em consultas e passaram por mim, ao longo destes últimos anos, muitos milhares de famílias, sem qualquer exagero.

Assisti a muitas situações tristes. A muitas discussões. A muitas lágrimas. Assisti também, cheia de orgulho, a muitas vitórias, muitos sorrisos. Recebi e dei muitos abraços.

Mas comove-me sempre –  enquanto mãe, mulher  profissional – quando leio algo assim.

Vivemos numa época em que a internet permite que se digam coisas impunemente. Há pessoas que usam essa impunidade do anonimato para vexar, para criticar, para apontar o dedo. Isso acontece muito na área que escolhi para trabalhar – estranhamente algo que só me apercebi bastante tempo depois. O tema do sono é polémico porque há pessoas que escolhem que assim o seja. Porque há pessoas que só conseguem defender a sua posição criticando as dos outros. Mas as decisões de cada um são pessoais e não devem ser julgadas. Em cada casa, em cada família, em cada Mãe há uma história. E  por vezes as histórias não são contadas como são na realidade. Porque o medo que nos apontem o dedo e que nos julguem não vai ajudar em nada e faz apenas com que nos sintamos piores. 

É muito corajoso para uma mãe assumir para si mesma que “desde que a filha nasceu sinto que morri”. Mas muito triste não o poder fazer abertamente. Vamos lá deixar de achar que as “boas” mães e as “boas” práticas passam por uma série de ideais que têm forçosamente de ser respeitados só porque existem nas cabeças e manuais das mães perfeitas.

A perfeição não existe. Não existem mães perfeitas. Nem aquelas que conseguem parir sem drogas, que amamentam até ao desmame natural, que nunca dão um grito, que dormem com os filhos no colo até eles (ou elas) o quererem e que nunca, mas nunca se queixam de nada porque “tudo é normal” e “tudo faz parte” e “um dia vamos ter saudades”.

Existem mães esforçadas. Mães que amam. Mães que tentam. E falham. E também acertam. Porque somos humanas. E isso só é bom. Os nossos filhos devem ver-nos errar. Ver-nos tentar. Ser injustas. Ser firmes. Ser frágeis. Devem ver-nos como pessoas que dão o seu melhor, que não desistem. Mas que sim… por vezes vão-se abaixo e falham. Caso contrário, com que raio de expectativas em relação a si mesmos e aos outros vão crescer?

Uma mãe que me confessa que sente que morreu é corajosa pois está em busca de algo melhor para ela e para a sua filha. Se calhar se vivêssemos numa sociedade em que em vez de se criticar se abraçasse mais, se amasse mais e se efectivamente se procurassem em conjunto soluções (mesmo que à partida pudessem ser algo que não sintamos que possa funcionar) esta mãe não sentiria que uma parte de si está morta há 20 meses. 20 meses é tempo demais.

O sono é essencial. Já o disse tantas vezes, mas direi as vezes que forem necessárias: não, não é suposto encarar a falta de sono e de descanso como algo “normal”. Claro que vamos perder muitas noites depois de sermos mães, que os nossos pequenotes vão passar por fases diferentes, que vão precisar de ser confortados, que vão acordar assustados, que vão precisar de se alimentar, que passam por picos de crescimento e saltos de desenvolvimento… mas tenham dó! Daí a usarmos a palavra “normal” para descrever bebés e crianças que não dormem mais de 2h ou 3h durante meses e/ou anos seguidas é ilógico. Então e os bebés e as crianças que dormem tranquilos e bem são o quê? Anormais?

Algo que afecta a este ponto uma mãe deve ser tratado com respeito.

Quem estiver por aí e sentir o mesmo saiba que não está sozinha. E que não… não é preciso sorrir para toda a gente. É preciso pedir ajuda e tentar mudar algo que não nos permite ser o melhor que podemos.

 

 

 

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