Treinar o sono em recém-nascido?!

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Na semana passada li um estudo que avalia os resultados de vários outros estudos sobre as intervenções comportamentais no sono dos bebés , ou seja, sobre os treinos de sono. A primeira vez que o li chegou-me através de um daqueles sites em que se demoniza os treinos de sono bem os terapeutas/especialistas que defendem que os bebés devem ser autónomos a dormir. Mas ao ler atentamente o estudo percebe-se que, de facto, a ideia que queremos transmitir pode, de facto, enviesar até um estudo sério. Por isso, resolvi partilha-lo convosco.

Este estudo centra-se no choro excessivo nos PRIMEIROS meses de vida (até aos 6 meses). O objectivo dos investigadores era perceber se as intervenções dos pais a nível de sono poderiam, ou não, alterar o facto dos seus bebés chorarem tanto. Obviamente que se percebeu que o choro, a alimentação e o sono estão interligados nos primeiros 4/6 meses de vida e que até bebés que dormem melhor de noite podem chorar muito de dia.

Mas então… porquê usar este estudo para defender que não se deve ensinar a dormir?

Porque intervenções comportamentais ao nível do sono (os tais treinos) nos primeiros 4 meses podem não ter qualquer benefício a longo prazo no sono dos bebés. Porque o primeiro semestre de vida é muito diferente do segundo e é importante conhecermos e darmos tempo aos nossos bebés. Porque há pequeninos que não estão fisicamente confortáveis, outros que precisam de mais tempo para se regularem e ajustarem ao mundo “cá fora”, outros que precisam de mais alimento, outros que simplesmente choram mais, que estão demasiado estimulados, que precisam de mais contacto, que tiveram um parto diferente…

Os treinos de sono ou ensinar a dormir de forma autónoma pressupõem que temos um bebé que está preparado para fazê-lo. Algo que normalmente até aos 6 meses de vida pode não acontecer (atenção que conheço centenas ou milhares de bebés que o fazem desde que nascem, dormindo no seu berço, conseguindo adormecer de forma independente sem nunca terem chorado nas suas camas, mas ainda assim, acredito que os primeiros meses servem para conhecer o nosso bebé).

Quem trabalha com o sono de bebé (pelo menos no meu caso) sabe perfeitamente que nos primeiros 6 meses o mais importante é garantir que o bebé está confortável e relaxado, conhecê-lo bem, para que depois, com calma e de forma progressiva possa aceitar adormecer de forma autónoma.

Mais importante… neste estudo ressalta-se que a “super-proteção” ou resposta imediata a todas as necessidades, particularmente a partir dos 4 meses de vida está relacionado a um aumento da quantidade de vezes que o bebé acorda.

Os investigadores (Pamela Douglas e Peter Hill) fizeram um compêndio com as principais conclusões de cada estudo. E alguns conseguem evidenciar que a duração do sono (seguido e com despertares que o bebé consegue resolver sozinho) aumenta rapidamente durante os principais 4 meses de vida. Isto de forma natural. Então porque será que as mães que me procuram se queixam exatamente do contrário? Que até aos 4 meses os bebés dormiam melhor do que dormem quando me procuram – que pode ser aos 6, aos 10, 15, 20 ou 3 e 4 anos?

Porque a aprendizagem importa e muito!

Porque a partir de certa idade torna-se expectável que os nossos bebés durmam seguido e descansem. E se tal não acontece não é porque não estão fisiologicamente preparados para tal (pobres da maioria dos outros bebés que sempre dormiram bem e seguido e sozinhos! Serão eles que não estão dentro da “normalidade” quando ainda por cima são a larga maioria?) é simplesmente porque fizeram uma aprendizagem que os leva a precisar de ajuda para (re)adormecer.

Neste estudo conclui-se que:

* nas primeiras 12 semanas de vida o treino de sono aumenta a duração do sono mas não necessariamente diminui o choro do bebé (em muitos casos diminui o choro e aumenta a duração de sono – o que parece ser positivo. Ainda assim não é algo que eu recomende);

* que entre as 6 e 12 semanas de vida não são encontradas diferenças significativas na quantidade de despertares noturnos que faz um bebé que é ensinado e outro que não é ensinado (mas quem quer ensinar bebés a dormir sozinhos com 6 semanas de vida?!)

* Neste estudo dá-se um exemplo de diferença cultural entre Ingleses e Dinamarqueses quase como “prova” de que ensinar a dormir pode não resultar. Os bebés ingleses são conhecidos como os que choram mais (e em Inglaterra há muito a prática do treino de sono) enquanto que os bebés dinamarqueses são dos que choram menos. Mas…O giro é que na Dinamarca os bebés adormecem nas suas camas desde cedo, dormem sestas na rua nos carrinhos e no não no colo… choram menos porque simplesmente os pais são menos stressados. O primeiro ano de vida é considerado muito, muito importante na Dinamarca (como deveria ser em todo o mundo) e tanto a mãe como o pai têm licenças alargadas, com parte financeira ajustada. O ritmo é mais calmo, as mães têm mais tempo, mais contacto, boas rotinas, bebés que dormem no frio 🙂 e claro… assim sendo, menos choro e noites cada vez melhores.

Se quiserem, têm o artigo aqui.

 

 

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